segunda-feira, 6 de abril de 2009

RICARDO FERRAZ


A HISTÓRIA
Como tudo começou...
Esta coletânea de cartuns temáticos, que aborda o dia a dia das pessoas com deficiência, é o resultado de duas décadas durante as quais registrei flagrantes em que as barreiras arquitetônicas, o preconceito e a desinformação estão presentes.
Tudo começou em 1981, escolhido pela ONU como "Ano Internacional das Pessoas com Deficiência", tendo como tema central "Participação plena e igualdades". Era "quase" uma utopia, pois, naquale época, ainda não se falava em INCLUSÃO SOCIAL e outros conceitos de CIDADANIA. A sociedade desconhecia o potencial do portador de deficiência; tinha uma visão assistencialista e paternalista.
Nesse mesmo ano fui convidado a articular uma associação da categoria em minha cidade Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo. A cidade possui uma topografia bastante acidentada, o que, consequentemente, dificulta o acesso das pessoas com deficiências físicas ao espaço urbano, principalmente aquelas de cadeira de rodas.
Foi uma missão difícil. Primeiro, pela falta de informação. Eu desconhecia meus próprios direitos e, muito complexado, não assumia minha deficiência. Depois, não conhecia a realidade de outras pessoas com deficiências: onde moravam, como viviam. Era um desafio.
Visitando os bairros periféricos, deparei-me com quadros dramáticos de pessoas portadoras de deficiência. O extemo da segregação, reflexo da ignorância e do preconceito, tudo isso associado à condição da pobreza absoluta. Foi um impacto muito forte. Perplexo com aquela situação e impotente diante daquele flagelo humano, percebi que minha voz não tinha eco. Num instante de reflexão, pensei: "Tenho uma idéia". Gritei emocionado: "EUREKA"! Fazia cartuns para o jornal da prefeitura, "O Momento". Por que não abordar aquela realidade por meio de cartuns?
A arte foi um importante instrumento de reflexão nessa longa jornada, no combate ao preconceito. Passei a produzir cartuns enfocando a questão e deixava bem claro que "a proposta não era generalizar nem dramatizar, mas fazer cócegas na sensibilidade".
Logo, os desenhos ganharam espaço nos jornais e revistas especializados em todo o Brasil. Com o êxito, passei a realizar exposições itinerantes. Os visitantes revelaram profundas emoções e indignação ao se depararem com a realidade que até então desconheciam. O tema provocou reflexões e discussões em todos os locais por onde a mostra passou.
Lancei esta coletânea durante o XIX Congresso Mundial da "Reabilitação Internacional", no ano 2000, no Rio de Janeiro. O evento possibilitou-me divulgar a publicação nos cinco continentes ali representados. Conclui que a problemática não era apenas na minha cidade, mas que a exclusão social consistia em uma preocupação mundial.
Mesmo com a crise generalizada que assola o País, é possível contabilizar importantes conquistas. A principal foi a conscientização das próprias pessoas com deficiência e a sua orgamização social por meio de associações, federações e entidades não-governamentais. Conhecedores de seus DIREITOS E DEVERES, os portadores de deficiência hoje colhem frutos, resultado de muitas lutas e do sonho de uma sociedade mais justa.
Pretendo continuar tratando a questão por meio de cartuns e, se depender de todos os segmentos sociais, abordarei apenas as conquistas... O PRECONCEITO...?!? "Coisa do passado!?!"

O ARTISTA
O cartunista Ricardo Ferraz, nascido em 1952, é daqueles que trasformam sonhos em realidade, predestinados no desafio de superar barreiras arquitetônicas e sociais. Aos cinco anos, contraiu poliomielite, o que o deixou privado em uma cama, sem contato com crianças de sua idade. Descobriu no desenho um ótimo passatempo. Com dedicação e amor a essa arte, rabiscava em papel de embrulhar pão. Hoje, seus cartuns são conhecidos em âmbito nacional e internacional.
Começou a trabalhar na infância engraxando sapatos, exercendo várias funções profissionais, de agitador cultural a diretor de penitenciária. Militante de movimentos populares, foi um dos fundadores da Associação Capixaba de Pessoas com Deficiência (ACPD), onde encontrou um fonte inesgotável para enfocar a questão por intermédio de seus cartuns. Conquistou a mídia ao assinar uma vinheta na programação da Rede Globo pelo segundo ano consecutivo, resultado de concursos realiados pela emissora. Teve seus trabalhos exibidos na programação do SBT, em campanha do Teleton, em prol da AACD.
Professor de desenho artístico na cidade de Cachoeiro de Itapemirim (ES), Ricardo acredita que a "arte remove montanhas" e sonha com uma sociedade mais justa e igualitária.


Como você conseguiu contato com a Rede Globo e SBT?
Ricardo Ferraz: Desde 1981, venho abordando a problemática das pessoas com deficiência através do cartum um canal de comunicação para denunciar a violência do preconceito e sensibilizar a sociedade sobre a questão. Uma exposição itinerante sob o título "Visão e Revisão, Conceito e Pré-Conceito", percorre todo o país e exterior, mostrando de forma crítica e humorada situações concretas do dia-a-dia das pessoas com deficiência e suas barreiras físicas e humanas.
Em 2001 a Rede Globo promoveu em nível nacional, um concurso para profissionais e amadores para selecionar projetos para as vinhetas eletrônicas, conhecidas como Plin-Plim. Tive a idéia de levar o tema para a TV. Um sonho quase impossível, competindo com os "feras" do cartum e charge do país.
Numa simples mesa de cozinha, rabisquei em papel A-4 um "history-board". Imaginei dois cadeirantes em frente a uma escada, eles têm uma idéia, puxa a escada em forma de linha e transforma em rampa que também vai beneficiar as mães com carro "baby", idosos e crianças. Na época não se falava em acessibilidade e desenho universal.
Com a cara e coragem, enviei o projeto via correio. Para minha surpresa, fui informado pela Globo, por telefone que minha idéia tinha sido aprovado entre os trinta melhores do país. A vinheta foi um marco na história, a primeira a abordar a questão da acessibilidade em nível nacional e internacional. Tive a sorte de ter mais duas vinhetas selecionadas em 2002 e 2005, totalizando três projetos vitoriosos.
A minha participação no TELETON do SBT, foi o resultado da ampla divulgação do meu trabalho na mídia. Recebi o convite através da jornalista responsável pelo programa, Flávia Cintra, também cadeirante e militante do movimento. Graças ao meu lado "quixotesco", hoje os cartuns temáticos são conhecidos no Brasil e no mundo, ilustrando livros didáticos conhecidos no Brasil e no mundo, ilustrando livros didáticos entre outros.

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